28 de março de 2013

Frenagem

 Basta! Não precisou ouvir mais nada para sentir o estômago embrulhado. Qual é a dela? Já havia tantos problemas ocupando a mente, para que criar mais um? Estava farto. Deixou que a brisa vespertina lhe lavasse a expressão furiosa do rosto e seguiu em direção ao carro.
 "It's time to leave this town, it's time to steal away."  
 Aumentou o volume enquanto o ponteiro da quilometragem chegava ao marcador 120. Sua cabeça rodava ao som da voz de Anthony Kiedis, todas as mazelas dos últimos dias invadiram-lhe a mente se transformando em um turbilhão de pensamentos ruins. A estrada desfocava a sua frente dando lugar as mágoas recentes que tanto o incomodavam.
 Ele não viu como aconteceu. Sentiu-se despencando de uma velocidade de 120 km por hora e indo para uma utópica velocidade negativa. Tudo, de repente, ficou claro e lento; muito lento. O clarão cegava-lhe e as leis da física contrariavam tudo o que ele havia aprendido no colégio. A gravidade não agia sobre o seu corpo, impedindo que seus movimentos fossem ágeis. Uma enorme sensação de paz invadiu a cena, mas logo foi esquecida com a dor do fêmur rasgando-lhe a carne, iniciando uma série de outras fraturas e perfurações. Como em um piscar de olhos, o tempo deixou de dilatar e a gravidade voltou a agir, lançando o carro em que estava de volta ao asfalto.
 O relógio marcava 2h35 quando ele finalmente conseguiu ajustar o foco da visão e visualizar a disposição dos ponteiros no relógio da parede. Demorou para entender que não estava em casa e que não se tratou de um sonho. O cheiro característico de UTI o orientou. Estava cansado. Seu coração já não ardia em mágoas e rancor, nem o resto do seu corpo.



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