Desprendeu-se da copa da árvore e foi levada pela brisa. A folha parecia dançar conduzida pelo vento, voltas completas até atingir o asfalto morno. No playground, crianças brincavam de ciranda.
Era década de 90, Luzia estava com um vestido azul de bolinhas brancas - seu favorito. Balançava despretensiosamente no balanço do parque quando o avistou. Tão lindo! Nunca tinha visto tanta beleza em um só lugar. Queria-o para si. Estava tão concentrada que não ouviu quando a chamaram. Era hora de voltar para casa. Luzia bateu o pé e chorou como qualquer criança de 7 anos faz quando precisa ir embora na melhor parte da brincadeira. Para ela, no entanto, no melhor do contemplamento.
Os pais de Luzia eram líderes de uma corporação renomada, quase não tinham tempo para a filha. A menina passava boa parte do dia trancada em casa, tinha como diversão olhar as crianças correndo de um lado para o outro na rua. Ter ido ao parque aquele dia foi algo excepcional para o cotidiano ao qual estava acostumada.
Ainda focada na beleza daquele objeto, Luzia agora era arrastada para o carro por sua mãe. Já no interior do automóvel, entre lágrimas, gritou:
- Eu quero aquela bexiga azul!
Seu pai, sem dar ouvidos, dirigiu em direção a zona sul.
28 de maio de 2012
Caindo em devaneio
O vaso lançado por mãos tão delicadas quebrou-se rapidamente. Anna não se importava em pisar sobre os estilhaços. Estava desesperada, os olhos mareados transpareciam o desgosto pelo qual passara. Andava de um lado para o outro. Seus pés sangravam cortados pelos cacos sobre o piso da sala. E agora? Lágrimas começaram a rolar rapidamente pelo seu rosto. O relógio marcava 22h16. Precisava de um plano. Desesperada, apossou-se da faca sobre a mesa e seguiu em direção ao banheiro. Em passos largos, não viu o piso molhado ao entrar, caiu de costas no chão. O baque a fez esmorecer. Quando retomou a consciência, percebeu que havia esgorregado em uma poça de sangue. Assustada, temeu o que estaria por vir. Levantou lentamente e, ainda mais devagar, dirigiu-se ao boxe ensanguentado. Tremendo, abriu-o abruptamente. Um grito agudo. Letícia, era a Letícia! Estava morta. Pálida, Anna saiu do banheiro. Não sabia para onde ir, não sabia onde estava.
Na sala, o silêncio foi quebrado por um barulho de chave na fechadura. Dois homens altos entraram na casa, um deles pisou sobre os cacos do vaso usado por Anna. Havia sangue e um corpo caído ao lado do sofá.
- O que ela fez com o Jorge?
- Put... onde ela está?
Anna, tentando abrir a janela, derrubou o abajur que estava ao lado da cama. Ouviu passos na direção do quarto e, usando mais força, conseguiu abrir a janela. Pulou o mais rápido que pode e correu por entre as árvores. Estava apavorada, não fazia ideia de para onde estava indo. Caiu. Quando abriu os olhos avistou o relógio digital - 3h34. Era o terceiro pesadelo só naquela semana.
Na sala, o silêncio foi quebrado por um barulho de chave na fechadura. Dois homens altos entraram na casa, um deles pisou sobre os cacos do vaso usado por Anna. Havia sangue e um corpo caído ao lado do sofá.
- O que ela fez com o Jorge?
- Put... onde ela está?
Anna, tentando abrir a janela, derrubou o abajur que estava ao lado da cama. Ouviu passos na direção do quarto e, usando mais força, conseguiu abrir a janela. Pulou o mais rápido que pode e correu por entre as árvores. Estava apavorada, não fazia ideia de para onde estava indo. Caiu. Quando abriu os olhos avistou o relógio digital - 3h34. Era o terceiro pesadelo só naquela semana.
19 de maio de 2012
Emenda Criminal
Ela caminhava em passos largos, o suor escorria pela testa. Era um final de tarde comumente quente. O sangue escondido entre os dedos na mão fechada já havia secado, preocupava-se agora com a taquicardia que a acometia. Era fundamental esboçar tranquilidade quando chegasse. Quais as possíveis perguntas? Premeditava, inclusive, a espontaneidade das respostas.
- Doutor Willian?
- Terceiro andar, sala 15.
A hora de enfrentar os medos havia chegado. A esquerda um banheiro, poderia finalmente relaxar os dedos. Lavou as mãos e seguiu para o elevador. Terceiro andar. O tal doutor, conhecido como D.W., personificava seus medos. Abriu a porta lentamente e o avistou de costas, como premeditara.
- Está atrasada.
- Houve um pequeno incidente, mas tudo já foi resolvido.
- Você trouxe?
- Exatamente a parte que o senhor pediu.
Entregou-lhe o pequeno embrulho que trazia no bolso. Anatomicamente envolto em jornal, a encomenda fez D.W. esboçar um pequeno sorriso. Um silêncio ponderado. Era possível ouvir o barulho ensurdecedor dos carros passando na rua metros abaixo. Ela o fitou esperando pelo pagamento, minunciosamente envolveu o revolver com as mãos. O volume era discreto por baixo da camiseta. D.W. abriu uma das gavetas da escrivaninha e, após alguns segundos, curvou-se para finalmente pegar algo no interior do móvel. Um tiro.
- Estes elevadores demoram para descer.
- Um pouquinho.
Na rua, o volume de carros havia aumentado.
- Doutor Willian?
- Terceiro andar, sala 15.
A hora de enfrentar os medos havia chegado. A esquerda um banheiro, poderia finalmente relaxar os dedos. Lavou as mãos e seguiu para o elevador. Terceiro andar. O tal doutor, conhecido como D.W., personificava seus medos. Abriu a porta lentamente e o avistou de costas, como premeditara.
- Está atrasada.
- Houve um pequeno incidente, mas tudo já foi resolvido.
- Você trouxe?
- Exatamente a parte que o senhor pediu.
Entregou-lhe o pequeno embrulho que trazia no bolso. Anatomicamente envolto em jornal, a encomenda fez D.W. esboçar um pequeno sorriso. Um silêncio ponderado. Era possível ouvir o barulho ensurdecedor dos carros passando na rua metros abaixo. Ela o fitou esperando pelo pagamento, minunciosamente envolveu o revolver com as mãos. O volume era discreto por baixo da camiseta. D.W. abriu uma das gavetas da escrivaninha e, após alguns segundos, curvou-se para finalmente pegar algo no interior do móvel. Um tiro.
- Estes elevadores demoram para descer.
- Um pouquinho.
Na rua, o volume de carros havia aumentado.
18 de maio de 2012
Esquete 01
Caiu como uma folha de outono em plena primavera. Oxidada, cor de sangue. Desmanchou-se em 3, talvez até 5 pedaços. Inundou o coração daqueles que outrora esperaram o desabrochar do botão de rosa mais aveludado que conheciam. Suave, macio, delicado. Agora seco, exalando enxofre. Uma flor caída, uma folha desmanchada. No calendário: 28 de setembro.
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